
Dan Monte: o crack e suas consequências Foto: Priscila Lopes
O ano está acabando, estou tendo pouco tempo para escrever no WordPress, mas hoje resolvi fazer mais um contato, porém, já pressentindo que não obteria sucesso. No caderno de anotações, onde trago todas as informações dos jovens entrevistados para o livro “Sonhos além das grades”, procuro por Dan Monte (nome fictício). Apenas um número de telefone, que nem mesmo é de sua casa.
A família morava em Pindamonhangaba, interior de São Paulo, não tinha telefone e Dan, de 16 anos, me contou que o barraco onde vivia com a mãe e mais 2 irmãos, não tinha nenhuma identificação. A única forma de contato era mesmo o telefone de uma “vizinha distante”, que consegui junto às assistentes sociais da Fundação Casa de Itaquera. Mas ao discar, a mensagem de uma voz robótica dizia que o número de telefone não existia. Era colocado um ponto final em mais um contato. Talvez eu consiga algo junto a Secretaria de Assistência Social de Pindamonhangaba, visto que provavelmente o Dan ainda esteja cumprindo Liberdade Assistida, mas é uma dúvida.
Dan tem uma típica história de família desestruturada, garoto pobre, cresceu sem o pai, aprendeu na rua a malícia de roubar salgadinhos nos mercados, soltar pipa nas lajes, brincar de pega-pega. Por incentivo dos tios, acabou experimentando o primeiro cigarro de maconha, algo até que insignificante. No fundo do quintal da tia, aceitou um outro cigarro, sem saber que ela havia colocado raspas de crack. O vício foi quase que instantâneo. Após o primeiro, quis o segundo, o terceiro, o crack puro. Daí por diante, passou a roubar de tudo para ter a droga, de botijão de gás a roupa nova dos irmãos. Chegou a vender todos os talheres de casa em um depósito de sucatas para juntas moedas.
A mãe conseguiu lhe internar 2 vezes, fugiu em ambas. Ia para a rua, fazer o que fosse para ter o crack, chegou a pesar menos de 50 quilos, não tinha forças, mas o vicio o corroia. Foi pego roubando uma bicicleta, a qual seria vendida em qualquer esquina para conseguir manter o consumo diário de quase 20 pedras.
Sua medida sócio-educativa de internação era de 10 meses, por meus cálculos, provavelmente voltou para casa no começo de novembro. Lembro que ele dizia que sabia dos problemas que o vicio trouxe, mas que estava limpo e assim queria ficar, já que “não era bandido, só havia roubado porque o crack o obrigava”. A primeira coisa que queria fazer, ao sair de Itaquera, era comer um hambúrguer com os sóbrios Yasmin e Igor, e eu sinceramente, espero que tenha conseguido.

"Nessa foto fiquei parecendo aqueles bandidinhos", Dan Monte - Foto Priscila Lopes
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