06
fev
10

Dedicatória – Sonhos Além das Grades

Foto: Priscila Lopes

Lendo novamente meu trabalho, parei por alguns minutos para refletir sobre a dedicatória feita em 2008.

“Dedico este trabalho a todos os meninos, que corajosamente partilharam comigo suas dores, seus sonhos e suas histórias de vida. Dedico aos seus parentes: pais, tios, irmãos, mulheres e filhos, vítimas inocentes dos erros alheios que, mesmo em meio a tantas dificuldades, encontraram uma maneira de apoiar, de perdoar e de amar. Dedico também aos sonhos de um futuro melhor, mais digno e mais feliz, que torna todo o sofrimento suportável.” Priscila Lopes

Hoje, há mais de mim nestas palavras do que eu poderia imaginar.

30
dez
09

DASPRE e Sistema Prisional Feminino

"Daspre, a grife que liberta" Foto: Divulgação

Esta semana tive o prazer de ouvir uma série de programas sobre o Sistema Prisional Feminino, trabalho este desenvolvido por dois alunos da PUC-SP, Rodrigo Borges Delfim e Alexandre Saconi.

Dividido em quatro partes, o trabalho consegue retratar de forma precisa e repleta de fontes, o Sistema Prisional, o cotidiano das presas, as iniciativas e as perspectivas. Irei pedir autorização dos jornalistas para publicar um dos programas neste WordPress.

Ouvindo os programas, eu que já havia escutado falar de Daslu e Daspu, me deparei com a Daspre, isso mesmo, Daspre. Uma grife criada, inicialmente como projeto, em 2008 e que já beneficiou mais de 200 presas das Penitenciárias Feminina de Santana, do Butantã e da Capital. Com intuito não é de apenas “ocupar a cabeça” das presas, mas também dar oportunidades, ensinar e tornar possível a concretização de sonhos, depois da passagem pela prisão.

Utilizando o slogan “Daspre, a grife que liberta”, porta-jóias, bolsas, caixas de costura, bijuterias e acessórios em geral são vendidos e revertem em beneficio de 80 reais para presas em regime fechado e salário de 315 reais, mais vale transporte e refeição, no caso de presas em regime semi-aberto. Em ambos os casos ocorrem à remição da pena, a cada três dias de trabalho, um dia da sentença é diminuído.

Agora aquela questão básica me vem à cabeça: “por que será que eu nunca ouvi falar da Daspre?”. A pauta não é “vendável”? Somente notícias negativas de cadeias e prisões interessam? Ou há também o descaso da sociedade? Coisas para se pensar neste final de ano…

Produtos Daspre - Foto: Divulgação

15
dez
09

Dan Monte… “Esse número de telefone não existe”

Dan Monte: o crack e suas consequências Foto: Priscila Lopes

O ano está acabando, estou tendo pouco tempo para escrever no WordPress, mas hoje resolvi fazer mais um contato, porém, já pressentindo que não obteria sucesso. No caderno de anotações, onde trago todas as informações dos jovens entrevistados para o livro “Sonhos além das grades”, procuro por Dan Monte (nome fictício). Apenas um número de telefone, que nem mesmo é de sua casa.

A família morava em Pindamonhangaba, interior de São Paulo, não tinha telefone e Dan, de 16 anos, me contou que o barraco onde vivia com a mãe e mais 2 irmãos, não tinha nenhuma identificação. A única forma de contato era mesmo o telefone de uma “vizinha distante”, que consegui junto às assistentes sociais da Fundação Casa de Itaquera. Mas ao discar, a mensagem de uma voz robótica dizia que o número de telefone não existia. Era colocado um ponto final em mais um contato. Talvez eu consiga algo junto a Secretaria de Assistência Social de Pindamonhangaba, visto que provavelmente o Dan ainda esteja cumprindo Liberdade Assistida, mas é uma dúvida.

Dan tem uma típica história de família desestruturada, garoto pobre, cresceu sem o pai, aprendeu na rua a malícia de roubar salgadinhos nos mercados, soltar pipa nas lajes, brincar de pega-pega. Por incentivo dos tios, acabou experimentando o primeiro cigarro de maconha, algo até que insignificante.  No fundo do quintal da tia, aceitou um outro cigarro, sem saber que ela havia colocado raspas de crack. O vício foi quase que instantâneo. Após o primeiro, quis o segundo, o terceiro, o crack puro. Daí por diante, passou a roubar de tudo para ter a droga, de botijão de gás a roupa nova dos irmãos. Chegou a vender todos os talheres de casa em um depósito de sucatas para juntas moedas.

A mãe conseguiu lhe internar 2 vezes, fugiu em ambas. Ia para a rua, fazer o que fosse para ter o crack, chegou a pesar menos de 50 quilos, não tinha forças, mas o vicio o corroia. Foi pego roubando uma bicicleta, a qual seria vendida em qualquer esquina para conseguir manter o consumo diário de quase 20 pedras.

Sua medida sócio-educativa de internação era de 10 meses, por meus cálculos, provavelmente voltou para casa no começo de novembro. Lembro que ele dizia que sabia dos problemas que o vicio trouxe, mas que estava limpo e assim queria ficar, já que “não era bandido, só havia roubado porque o crack o obrigava”. A primeira coisa que queria fazer, ao sair de Itaquera, era comer um hambúrguer com os sóbrios Yasmin e Igor, e eu sinceramente, espero que tenha conseguido.

"Nessa foto fiquei parecendo aqueles bandidinhos", Dan Monte - Foto Priscila Lopes

27
nov
09

Continuar a caminhada…

Uma caminhada, cheia de pedras, mas que não podemos parar... Foto: Priscila Lopes

Ser quem sou e agradecer pelos tombos que levei sendo apenas eu. Nasci tola, cresci tola e morrerei na tolice de acreditar que nunca deve-se negar mais uma chance nesta vida. O que eu ganhei com tudo isso? Muito. Sou resultado das minhas ações e por isso agradeço todos os dias pelas lágrimas, dores, quedas e traições.

Tudo tem sua hora, portanto espero o que esta por vir. E que eu tenha sabedoria, paz e força para continuar nessa caminhada de bem, fazendo não só por mim, mas por  nós todos.

22
nov
09

O Contador de histórias

Milagres acontecem? Foto: Divulgação


Na grande tela do cinema os créditos já subiam, mas eu me mantinha ali, parada, intacta, como se tivesse tomado um choque. Os amigos já repercutiam as cenas, falavam de jogos de basquete, cursos de veterinária, e eu ali imóvel. A luz estava totalmente acessa e era possível ver que em muitos momentos meus olhos não suportaram e cederam a vontade de chorar.

“O Contador de histórias” não foi o primeiro filme escolhido no dia Nacional do Cinema brasileiro da rede Cinemark, onde conferi 5 filmes em um dia só, ele foi um dos últimos a serem citados, mas o primeiro no quesito fantástico.

Inspirado na história real de Roberto Carlos Ramos, ex-menino de rua que foi deixado pela mãe na FEBEM (havia um “conceito” bem diferente dos de hoje, porém já falido), o filme mostra as dificuldades que o garoto enfrentou até conseguir fazer o que mais gostava: contar histórias.

Assim como é mencionado no longa, Roberto recebeu um milagre, desses que não acontecem todos os dias, e após muitos traumas, foi morar com uma pedagoga francesa que o adotou e mostrou o mundo.

Acho que o final, inusitado, visto que “milagres não acontecem sempre”, principalmente por ser real, me deixou sem movimentos por alguns segundos. Tive que conter o choro ao lembrar que dos casos que eu ouvi, dentro da Fundação Casa de Itaquera-SP, não existia nenhum Roberto.

Segue o trailer do filme, que “Puta que lá merda” (expressão muito usada no longa) é simplesmente fantástico.

06
nov
09

Tortura institucionalizada

Agente - Itaquera

“Alguns funcionários, pouco profissionais, descontavam seus problemas pessoais nos jovens, chegando a agredi-los." Relato José Pedro, 17 anos. Foto: Priscila Lopes

“Não posso deixar que você publique isso! Depois que eu sair, tudo bem, mas agora não posso me queimar com eles.” – diz José Pedro (nome fictício), após contar uma das cenas mais chocantes que ouvi durante os 6 meses de entrevistas dentro da Fundação Casa de Itaquera em 2008.

Tratava-se do relato de uma sessão de chutes, socos, tapas e agressões, sofridas pelo jovem, por 4 funcionários da unidade. Unidade esta vista como “MODELO”, ou seja, uma das melhores, com dois anos de existência sem nenhuma rebelião, com atendimento psicológico, aulas… E?

Para que não fosse prejudicado, já que José Pedro pretendia sair o mais rápido possível “daquele lugar”, pediu que eu colocasse a seguinte frase: “alguns funcionários, pouco profissionais, descontavam seus problemas pessoais nos jovens, chegando a agredi-los”. Maneira sutil de esconder as sessões de maus tratos e tortura.

Outros garotos também chegaram a me contar que, apesar das “regalias” de Itaquera, entenda-se um colchão para cada jovem, um cobertor, banho de sol diário por 6 horas com atividade física e assistir “Malhação”, desrespeitar as regras, ditas e não ditas, resultava em punições que iam muito além da privação de assistir televisão ou participar de uma aula de panificação.

Falavam de punições severas, muitas vezes sem sentido real, por nervosismo causado por problemas pessoais trazidos pelos funcionários, para dentro da unidade. “Salário de merda, mulher só reclama e você bandidinho me olhou estranho que eu percebi.” Pronto! Quer motivo maior do que um suposto olhar atravessado? Já está justificado o tapa na cara.

Se a Casa MODELO, que devia servir de exemplo, como o próprio nome diz, em menos de 3 anos já se encontra com funcionários cansados e descontentes, que extrapolavam suas frustrações agredindo jovens, o que podemos esperar de outras unidades? Tortura institucionalizada?

24
out
09

Símbolos e tatuagens de “cadeia”

Simbologismo ou identificação? Imagem:

Muito além de simples pontinhos... Imagem: Governo do Estado de São Paulo

E na TV… Alguém em algum canal diz: “O meliante usava uma tatuagem de sereia na perna e há suspeitas de que esse seja seu 10º crime.” Foi então que me lembrei que havia comentado aqui e ali que escreveria sobre o significado de algumas tatuagens dentro dos presídios e Fundações Casa (antiga FEBEM).

Claro que hoje o significado dos desenhos no corpo não são mais um grande enigma como era há 20 anos, mas mesmo assim, muitos grupos, presos e adolescentes em medida socioeducativa de internação, utilizam-se de tal para identificação.

Um dos jovens que conversei, o primeiro deles, o skatista Michel Ângelo, já em Liberdade Assistida, depois de 11 passagem pela ex-FEBEM, trazia na mão alguns pontinhos preto. Eu que nem suspeitava que se tratava de uma tatuagem-código, fui descobrir na última entrevista, sentada em uma calçada qualquer do bairro Casa Verde, que o desenho significava “Chefe de Quadrilha e Homicida”. E tive ali mesmo uma “aula” de simbologia de cadeia.

Aprendi que os “tais pontinhos”, dependendo da disposição e número, mudavam de significado. Dois, lado a lado, estupro, três, em forma de triângulo, tráfico, quatro, formando quadrado, furto. Quatro, em forma de quadrado e um no meio, roubo, e a do Michel, que trazia nove pontos, em forma de cruz, chefe de quadrilha e/ou homicida.

Borboletas ou ponto no rosto é identificação de homossexualismo, e normalmente o ponto no rosto é feito sem consentimento para marcar mesmo a pessoa dentro do local onde ela está privada de liberdade. A imagem de um saci é utilizada por traficantes, a sereia tatuada na perna direita mostra que o preso foi condenado por estupro e a pistola tatuada na perna é sinal de latrocínio.

Cheguei a comentar sobre uma tatuagem no filme Salve Geral, a cobra ou serpente tatuada no peito de uma mulher, tem o significado de viúva. O símbolo atualmente não é muito usado, mas identifica que aquela mulher já teve um relacionamento sério com um presidiário que veio a falecer.

Depois pesquisando descobri que há em São Paulo um acervo de fotos e o significado das tatuagens dentro do sistema prisional (http://www.eap.sp.gov.br/signif).

sig

Identificação

13
out
09

“E o tal Salve Geral?” – E o Salve, se salva?

E o Salve, se salva? Imagem: Divulgação

E o Salve, se salva? Imagem: Divulgação

“E aí o que você achou do Salve Geral?” – me perguntou um amigo.

“Hum… Gostei, mas podia ser melhor.” – respondi.

“É…” – silenciou-se.

Não continue lendo esse post se você procura uma crítica de cinema, pois no caso, como já disse algumas vezes aqui, deixo tal responsabilidade para Camila Daher Fink e Cyntia Calhado, ou para mais entendidos em cinema, como o Newman.

Assisti sim ao filme, vi pontos positivos. Não havia presos coitados como é comum vermos nas telonas, e nem o bem e o mal, mas sim pessoas. A relação de poder dentro de uma organização “criminosa”, envolvendo diretamente uma mulher (Ruiva), mostra uma boa sacada, e mais do que isso, tira a mulher do papel de matriarca apenas… Ah, sim, nem tudo é perfeito, temos uma mãe, um filho preso, algumas lágrimas… Mas mesmo assim, não se trata de uma mãe qualquer.

Dos pontos negativos, posso dizer que haviam feridas a serem cutucadas. Passa-se muito rápido pela neura da “classe média”, que mais se preocupou com o dinheiro perdido e a possível bomba na Bovespa do que com o sistema carcerário falido e que mantém como bicho, milhares de pessoas. Senti falta também em um aprofundamento na organização PCC (Primeiro Comando da Capital) e no papel de um “governo paralelo” que tenta de certa forma, suprir os buracos que o governo deixa. Porém, mesmo com tudo isso, posso dizer que gostei sim, principalmente do final… Claro que não vou contar (rs).

Dica para quem assistiu ou irá assistir: Dentro e fora do Sistema Prisional as tatuagens não são meras marcas no corpo, provavelmente isso não seja novidade… Estas possuem significados, dão indícios de delito, preferência sexual, situação conjugal, etc. No filme há uma tatuagem importante, que não é feita por mero acaso… Alguém ainda acredita em acaso? (rs)

07
out
09

Tentativas de contato – Rodrigo (DIGO)

Internet? MSN? Desktop Priscila Lopes

Internet? MSN? Desktop Priscila Lopes

O MSN dá alerta de que uma nova pessoa está online. O nick “DIGO” repleto de caracteres seria facilmente confundido com um punhado de rabiscos, mas na foto está um jovem de 19 anos, moreno, cabelo curto com gel, sorriso no rosto e colar da moda.
Logo chega uma mensagem “E aí Pri, como você tá? E aqueles carrões? Depois manda uns pra que eu veja.” A conversa é tão informal e despretensiosa que alguns chegam a duvidar quando eu digo: “já entrevistei ele para o livro”.
Sim eu já o entrevistei. Na verdade fui até sua casa, conheci sua mãe, tomei café, vi o bairro, conheci alguns amigos, fomos ao centro da cidade, e lhe apresentei a internet. Como eu precisava enviar um material naquele mesmo dia para o local onde trabalhava, resolvi pegar 20 minutos em uma lan house, o gravador já havia captado mais de 4 horas de conversa e depoimentos.
Depois de enviado o arquivo, ainda restava tempo e me dispus a ensinar Rodrigo a mexer na internet, criar e-mail, abrir um MSN. Daquele dia pra cá nunca mais perdemos contato, mesmo que virtualmente. Sempre conversamos, fico sabendo de suas conquistas, trabalho, namoros…
Os quase 2 anos de internação na Unidade de Itaquera por tráfico de drogas já é passado e mesmo não tendo saído do bairro onde tudo aconteceu, ele aprendeu a contornar os problemas e as “amizades” equivocadas. A mãe, dona Cleuza, comprou-lhe um computador, colocou internet e agradeceu o dia em que alguém se dispôs a ensinar ao filho a ficar dentro de casa.
*Obs: Quando conheci o Rodrigo ele já estava em L.A (Liberdade Assistida), quinzenalmente visitava a sala da assistente social. Apesar de tímido, aceitou falar comigo, sabia que era uma ajuda mútua. Hoje, 궜 Dig[u]öÖ[/u] 궜 tornou-se um amigo que eu quero bem e sempre que posso procuro o nick cheio de caractéres para saber novidades. 
30
set
09

Quem é G*?

 

Quem era G*****? Foto: Priscila Lopes

Quem é G*****? Foto: Priscila Lopes

 

Como muitas pessoas que acessam esse wordpress não conhecem por completo o meu envolvimento com os garotos de Itaquera, resolvi explicar rapidamente quem é G***** ou Gilmar (nome fictício escolhido dentro da sala de atendimento da Unidade de Internação – Fundação Casa de Itaquera, antiga FEBEM).

Ele cresceu em Parelheiro (ZS) com mais 5 irmãos, conviveu com o alcoolismo do pai, espancamentos e surras de chicote, passou necessidades, se envolveu com drogas… Para conseguir dinheiro fácil, e ter o tão sonhado tênis e dinheiro para ir a festas, participou de um assalto, que deu errado. Viu o colega matar um homem no semáforo da Av. Nossa Senhora do Sabará, em São Paulo, foi perseguido pela polícia, apreendido e encaminhado para UAI do Brás (Unidade de Atendimento Inicial) por latrocínio.

Dentro da UAI e UIP (Unidade de Internação Provisória), foi espancado, ficou sem comer, tinha hora para conversar, passou frio… Foi levado para a UI de Itaquera (Unidade de Internação), para cumprir 8 meses de medida sócio-educativa em regime fechado. Foi lá que eu o conheci. Acanhado e tímido, nas gravações sempre falava da família, da irmã Pretinha, do irmão Gil… Teve orgulho de me contar que foi um dos escolhidos pelo professor Ângelo para representar a Unidade na Maratona de São Paulo.

No dia da entrega do livro “Sonho além das grades”, Gilmar ainda estava privado de liberdade. Havia rumores de que logo entraria em LA (Liberdade Assistida). Vi, na pequena sala de aula onde estavam reunidos os jovens que ainda permaneciam na Unidade, ele ler o capítulo inteiro de sua história e concordar com a cabeça…

Ainda vou tentar notícias… De todos eles…