06
Nov
09

Tortura institucionalizada

Agente - Itaquera

“Alguns funcionários, pouco profissionais, descontavam seus problemas pessoais nos jovens, chegando a agredi-los." Relato José Pedro, 17 anos. Foto: Priscila Lopes

“Não posso deixar que você publique isso! Depois que eu sair, tudo bem, mas agora não posso me queimar com eles.” – diz José Pedro (nome fictício), após contar uma das cenas mais chocantes que ouvi durante os 6 meses de entrevistas dentro da Fundação Casa de Itaquera em 2008.

Tratava-se do relato de uma sessão de chutes, socos, tapas e agressões, sofridas pelo jovem, por 4 funcionários da unidade. Unidade esta vista como “MODELO”, ou seja, uma das melhores, com dois anos de existência sem nenhuma rebelião, com atendimento psicológico, aulas… E?

Para que não fosse prejudicado, já que José Pedro pretendia sair o mais rápido possível “daquele lugar”, pediu que eu colocasse a seguinte frase: “alguns funcionários, pouco profissionais, descontavam seus problemas pessoais nos jovens, chegando a agredi-los”. Maneira sutil de esconder as sessões de maus tratos e tortura.

Outros garotos também chegaram a me contar que, apesar das “regalias” de Itaquera, entenda-se um colchão para cada jovem, um cobertor, banho de sol diário por 6 horas com atividade física e assistir “Malhação”, desrespeitar as regras, ditas e não ditas, resultava em punições que iam muito além da privação de assistir televisão ou participar de uma aula de panificação.

Falavam de punições severas, muitas vezes sem sentido real, por nervosismo causado por problemas pessoais trazidos pelos funcionários, para dentro da unidade. “Salário de merda, mulher só reclama e você bandidinho me olhou estranho que eu percebi.” Pronto! Quer motivo maior do que um suposto olhar atravessado? Já está justificado o tapa na cara.

Se a Casa MODELO, que devia servir de exemplo, como o próprio nome diz, em menos de 3 anos já se encontra com funcionários cansados e descontentes, que extrapolavam suas frustrações agredindo jovens, o que podemos esperar de outras unidades? Tortura institucionalizada?

24
Out
09

Símbolos e tatuagens de “cadeia”

Simbologismo ou identificação? Imagem:

Muito além de simples pontinhos... Imagem: Governo do Estado de São Paulo

E na TV… Alguém em algum canal diz: “O meliante usava uma tatuagem de sereia na perna e há suspeitas de que esse seja seu 10º crime.” Foi então que me lembrei que havia comentado aqui e ali que escreveria sobre o significado de algumas tatuagens dentro dos presídios e Fundações Casa (antiga FEBEM).

Claro que hoje o significado dos desenhos no corpo não são mais um grande enigma como era há 20 anos, mas mesmo assim, muitos grupos, presos e adolescentes em medida socioeducativa de internação, utilizam-se de tal para identificação.

Um dos jovens que conversei, o primeiro deles, o skatista Michel Ângelo, já em Liberdade Assistida, depois de 11 passagem pela ex-FEBEM, trazia na mão alguns pontinhos preto. Eu que nem suspeitava que se tratava de uma tatuagem-código, fui descobrir na última entrevista, sentada em uma calçada qualquer do bairro Casa Verde, que o desenho significava “Chefe de Quadrilha e Homicida”. E tive ali mesmo uma “aula” de simbologia de cadeia.

Aprendi que os “tais pontinhos”, dependendo da disposição e número, mudavam de significado. Dois, lado a lado, estupro, três, em forma de triângulo, tráfico, quatro, formando quadrado, furto. Quatro, em forma de quadrado e um no meio, roubo, e a do Michel, que trazia nove pontos, em forma de cruz, chefe de quadrilha e/ou homicida.

Borboletas ou ponto no rosto é identificação de homossexualismo, e normalmente o ponto no rosto é feito sem consentimento para marcar mesmo a pessoa dentro do local onde ela está privada de liberdade. A imagem de um saci é utilizada por traficantes, a sereia tatuada na perna direita mostra que o preso foi condenado por estupro e a pistola tatuada na perna é sinal de latrocínio.

Cheguei a comentar sobre uma tatuagem no filme Salve Geral, a cobra ou serpente tatuada no peito de uma mulher, tem o significado de viúva. O símbolo atualmente não é muito usado, mas identifica que aquela mulher já teve um relacionamento sério com um presidiário que veio a falecer.

Depois pesquisando descobri que há em São Paulo um acervo de fotos e o significado das tatuagens dentro do sistema prisional (http://www.eap.sp.gov.br/signif).

sig

Identificação

13
Out
09

“E o tal Salve Geral?” – E o Salve, se salva?

E o Salve, se salva? Imagem: Divulgação

E o Salve, se salva? Imagem: Divulgação

“E aí o que você achou do Salve Geral?” – me perguntou um amigo.

“Hum… Gostei, mas podia ser melhor.” – respondi.

“É…” – silenciou-se.

Não continue lendo esse post se você procura uma crítica de cinema, pois no caso, como já disse algumas vezes aqui, deixo tal responsabilidade para Camila Daher Fink e Cyntia Calhado, ou para mais entendidos em cinema, como o Newman.

Assisti sim ao filme, vi pontos positivos. Não havia presos coitados como é comum vermos nas telonas, e nem o bem e o mal, mas sim pessoas. A relação de poder dentro de uma organização “criminosa”, envolvendo diretamente uma mulher (Ruiva), mostra uma boa sacada, e mais do que isso, tira a mulher do papel de matriarca apenas… Ah, sim, nem tudo é perfeito, temos uma mãe, um filho preso, algumas lágrimas… Mas mesmo assim, não se trata de uma mãe qualquer.

Dos pontos negativos, posso dizer que haviam feridas a serem cutucadas. Passa-se muito rápido pela neura da “classe média”, que mais se preocupou com o dinheiro perdido e a possível bomba na Bovespa do que com o sistema carcerário falido e que mantém como bicho, milhares de pessoas. Senti falta também em um aprofundamento na organização PCC (Primeiro Comando da Capital) e no papel de um “governo paralelo” que tenta de certa forma, suprir os buracos que o governo deixa. Porém, mesmo com tudo isso, posso dizer que gostei sim, principalmente do final… Claro que não vou contar (rs).

Dica para quem assistiu ou irá assistir: Dentro e fora do Sistema Prisional as tatuagens não são meras marcas no corpo, provavelmente isso não seja novidade… Estas possuem significados, dão indícios de delito, preferência sexual, situação conjugal, etc. No filme há uma tatuagem importante, que não é feita por mero acaso… Alguém ainda acredita em acaso? (rs)

07
Out
09

Tentativas de contato – Rodrigo (DIGO)

Internet? MSN? Desktop Priscila Lopes

Internet? MSN? Desktop Priscila Lopes

O MSN dá alerta de que uma nova pessoa está online. O nick “DIGO” repleto de caracteres seria facilmente confundido com um punhado de rabiscos, mas na foto está um jovem de 19 anos, moreno, cabelo curto com gel, sorriso no rosto e colar da moda.
Logo chega uma mensagem “E aí Pri, como você tá? E aqueles carrões? Depois manda uns pra que eu veja.” A conversa é tão informal e despretensiosa que alguns chegam a duvidar quando eu digo: “já entrevistei ele para o livro”.
Sim eu já o entrevistei. Na verdade fui até sua casa, conheci sua mãe, tomei café, vi o bairro, conheci alguns amigos, fomos ao centro da cidade, e lhe apresentei a internet. Como eu precisava enviar um material naquele mesmo dia para o local onde trabalhava, resolvi pegar 20 minutos em uma lan house, o gravador já havia captado mais de 4 horas de conversa e depoimentos.
Depois de enviado o arquivo, ainda restava tempo e me dispus a ensinar Rodrigo a mexer na internet, criar e-mail, abrir um MSN. Daquele dia pra cá nunca mais perdemos contato, mesmo que virtualmente. Sempre conversamos, fico sabendo de suas conquistas, trabalho, namoros…
Os quase 2 anos de internação na Unidade de Itaquera por tráfico de drogas já é passado e mesmo não tendo saído do bairro onde tudo aconteceu, ele aprendeu a contornar os problemas e as “amizades” equivocadas. A mãe, dona Cleuza, comprou-lhe um computador, colocou internet e agradeceu o dia em que alguém se dispôs a ensinar ao filho a ficar dentro de casa.
*Obs: Quando conheci o Rodrigo ele já estava em L.A (Liberdade Assistida), quinzenalmente visitava a sala da assistente social. Apesar de tímido, aceitou falar comigo, sabia que era uma ajuda mútua. Hoje, 궜 Dig[u]öÖ[/u] 궜 tornou-se um amigo que eu quero bem e sempre que posso procuro o nick cheio de caractéres para saber novidades. 
30
Set
09

Quem é G*?

 

Quem era G*****? Foto: Priscila Lopes

Quem é G*****? Foto: Priscila Lopes

 

Como muitas pessoas que acessam esse wordpress não conhecem por completo o meu envolvimento com os garotos de Itaquera, resolvi explicar rapidamente quem é G***** ou Gilmar (nome fictício escolhido dentro da sala de atendimento da Unidade de Internação – Fundação Casa de Itaquera, antiga FEBEM).

Ele cresceu em Parelheiro (ZS) com mais 5 irmãos, conviveu com o alcoolismo do pai, espancamentos e surras de chicote, passou necessidades, se envolveu com drogas… Para conseguir dinheiro fácil, e ter o tão sonhado tênis e dinheiro para ir a festas, participou de um assalto, que deu errado. Viu o colega matar um homem no semáforo da Av. Nossa Senhora do Sabará, em São Paulo, foi perseguido pela polícia, apreendido e encaminhado para UAI do Brás (Unidade de Atendimento Inicial) por latrocínio.

Dentro da UAI e UIP (Unidade de Internação Provisória), foi espancado, ficou sem comer, tinha hora para conversar, passou frio… Foi levado para a UI de Itaquera (Unidade de Internação), para cumprir 8 meses de medida sócio-educativa em regime fechado. Foi lá que eu o conheci. Acanhado e tímido, nas gravações sempre falava da família, da irmã Pretinha, do irmão Gil… Teve orgulho de me contar que foi um dos escolhidos pelo professor Ângelo para representar a Unidade na Maratona de São Paulo.

No dia da entrega do livro “Sonho além das grades”, Gilmar ainda estava privado de liberdade. Havia rumores de que logo entraria em LA (Liberdade Assistida). Vi, na pequena sala de aula onde estavam reunidos os jovens que ainda permaneciam na Unidade, ele ler o capítulo inteiro de sua história e concordar com a cabeça…

Ainda vou tentar notícias… De todos eles…

29
Set
09

Tentativas de contato – G* – Sumiu?

Sumiu? Foto: Priscila Lopes

Sumiu? Foto: Priscila Lopes

- Alô?
- Quem?
- Por gentileza o G***** está?
- Quem é?
- Me chamo Priscila Lopes, sou jornalista, fiz um trabalho com ele…
- Trabalho? Um corre?
- Não, não, acompanhei ele em Itaquera, escrevi uma matéria.
- Ah tá. Aquele livrinho preto?
- Isso. Estou ligando para retomar o contato com os garotos e saber (não consegui terminar a frase…)
- Sumiu!
- Sumiu?
- Sumiu ué, fugiu, correu, morreu, sei lá, não sei.
- Mas vocês não têm nenhuma notícia dele?
- Eu devia? Cada um por si minha filha e Deus pra quase todos.
- Tem alguma idéia onde ele pode estar? Morando com o pai?
- “Cê” fala como se importasse. Caiu no mundão… Num sei se foi mora no sítio.
- É que eu… (a ligação foi interrompida por um choro agudo de criança)
- CALA BOCA MOLEQUE DA PORRA!!! Filho da puta só chora, coloca essa merda de chupeta e fica quieto. Olha aqui minha filha, o feijão tá no fogo e tá cheirando queimado. Eu não sei onde ele tá, se morreu que descanse em paz.  

Não tive tempo de falar mais nada. Coloquei o telefone na janela, apaguei a luz, deitei na cama e fiquei olhando o teto. Tive vontade de chorar, mas não chorei… Tive vontade de dormir, mas não consegui pegar no sono.

 

Última foto? Última notícia? Foto: Priscila Lopes

Última foto? Última notícia? Foto: Priscila Lopes

22
Set
09

Inevitável… NextGarage

É NextGarage, você chegou...

É NextGarage, você chegou...

Sim, eu prometi que aqui seria um território neutro, onde trabalho entraria, porém, torna-se praticamente impossível não fazer um post sobre a Next. Claro que nem pretendo ficar falando todas as coisas que me fizeram escolher esse sonho, mas sabe quando você simplesmente sente-se bem?

É uma nova fase, uma nova vida, uma nova escolha. NextGarage, muito obrigada! (www.nextgarage.com.br)

Algumas pessoas que merecem esse post: Patty, Renan, Dani (Daniel), Morit’s, Raphael, Déia, Marcão e Fernando.

04
Set
09

Ficção quase real…

Passos imaginários? Foto: Colaborador Átirom

Passos imaginários? Foto: Colaborador Átirom

Era possível acompanhar os passos marcados na areia fofa e úmida. Provavelmente um casal ou quem sabe dois amigos caminharam a pouco tempo naquele mesmo local. Com o olhar distante, parecia estar longe quando foi abordada:

- Ei, o que você está fazendo sozinha aí? Já é noite!

Devia ela responder? Achou melhor levantar as sobrancelhas e “dar com os ombros”, em um gesto de desprezo. Quem era ele para achar que estava só? Será que não havia notado as pegadas? Por alguns instantes achou melhor tomar uma nova atitude, sorriu de canto… E caminharam, formando novos passos na areia…

Não estamos sozinhos… Se olharmos bem, notaremos que existem muito mais passos do que os nossos.

Obs: “O Rio de Janeiro continua lindo… O Rio de Janeiro continua sendo…”

Matéria do Estadão (03 set) – Rio é eleita a cidade mais feliz do mundo pela ‘Forbes’: http://tinyurl.com/nvyeuo

31
Ago
09

O sol te convida…

O sol brilha lá fora...  Foto: Priscila Lopes

O sol brilha lá fora... Foto: Priscila Lopes

Muito tenho pensado nos posts que vou colocar neste WordPress, não quero torná-lo um diário e nem mesmo um psicólogo virtual, mas é possível fugir? Não sei… Hoje resolvi falar do Sol, sim o sol. Antes que alguém pense que estou sendo muito influenciada pelo Rafael (Astrofísico-truta), já respondo que não é bem isso.

Quantas vezes não achamos que a era do gelo e da escuridão permanecerá eternamente? Tudo parece tão frio, tão triste, tão depressivo, que todos os olhares carregam lágrimas… Mas eis que chega o SOL, aquele solzinho que no começo aparece tímido, em meio as nuvens… Mas ali presente. Depois começa a derreter todo o gelo, iluminar todos os caminhos escuros e trazer folhas verdes as árvores. Eu poderia me considerar uma árvore, um ipê roxo, que perdeu as folhas e agora, com a ajuda do sol, está novamente “esverdeado”.

E para aqueles que pensaram “Ahhh, sei, sol….”, não!  Meu sol não tem nome, não tem cara, não tem personalidade. O sol que está brilhando na janela é a vida, que continua passando independente de tudo, e me convidando a sorrir, conversar, brincar, e ser quem eu sempre fui (seja em dias nublados ou ensolarados).

Que tal deixar o Sol clarear as coisas? Derreter as geleiras? Tocar o seu rosto e aquecer sua alma? A vida te convida… Então… Permita-se!

Permita-se! Foto: Priscila Lopes

Então... Permita-se! Foto: Priscila Lopes

17
Ago
09

Desatando nós…

Tentar ao invés de só reclamar Foto: Priscila Lopes

Tentar ao invés de só reclamar... Foto: Priscila Lopes

Quantas vezes não nos deparamos com um nó tão apertado, tão firme, que pensamos em simplesmente deixá-lo ali para todo o sempre? Nessas horas, por mais que pareça que nossos esforços são insignificantes, devemos continuar…

Assim como os problemas, os nós não se soltarão sozinhos. Será preciso dedicar-se ao processo, muitas vezes árduo, de puxar, soltar, morder, alargar, e assim por diante.

Chegará uma hora em que o nó não será mais tão forte, e sendo assim, será possível desfazê-lo. Impossível seria se tivéssemos jogado no canto da sala, e pronto, abandoná-lo ali. Ficaríamos olhando, esbravejando, reclamando, xingando, e mesmo assim ele continuaria no mesmo lugar.

Que tal, hoje, ao invés de você jogar seu nó em qualquer canto, pegá-lo e dedicar alguns minutos, horas, dias ou meses, mas desfazê-lo. É muito mais simples do que passar o mesmo tempo reclamando e lembrando que ele ainda se encontra ali, intocável.

Nenhum nó será desatado sozinho... Foto: Priscila Lopes

Nenhum nó será desatado sozinho... Foto: Priscila Lopes




 

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