O celular toca… “Alô, Priscila? Viu a notícia que estão dando na TV? Parece que está acontecendo uma rebelião em Itaquera.” O aviso vem de um amigo que acompanhou, mesmo que de longe, todo o meu envolvimento na Unidade de Internação de Itaquera, Zona Leste de São Paulo.
Conhecida como Unidade Modelo, ou seja, aquela que tenta dar melhores condições para se cumprir a medida sócio-educativa imposta, Itaquera era orgulho por nunca ter tido uma rebelião. Isso até o dia 11 de março de 2010.
Uma tentativa de fuga teria colocado o caldeirão, com 120 jovens, para ferver. O problema não era lotação, a “Casa” comporta até 130 adolescentes e quando eu a visitava mais de 140 estavam lá. O problema ali é outro, não mostrado em uma matéria televisiva de 59 segundos, mais de um minuto é luxo é tedioso, isso claro se não houver reféns, armas apontadas para cabeças ou algo do gênero.
Certa vez, em uma conversa com o segurança da porta de entrada principal da UI-Itaquera, onde eu era revistada por uma guarda, ouvi a seguinte frase: “Eles tomam isso daqui quando quiserem. Vivemos de camaradagem, uma troca de favores, mas quando não mais estiverem satisfeitos é só esperar a fuga ou a rebelião”.
A fuga não aconteceu, 45 garotos tentaram sem sucesso (Havia uma informação no Jornal Estadão sobre 29 meninas, mas a Unidade só tem homens. – Me alertou o Gildemar em contato). Já a rebelião, foi controlada em 40 minutos com a “ajuda” do Batalhão da Polícia Militar. Na Unidade, foram encontrados pedaços de pau e objetos pontiagudos. A “Casa” não pegou fogo porque a maioria não aderiu, mas estes também irão pagar e ficarão privados de algumas “regalias”, como assistir televisão ou ler livros. Resumindo, estão novamente presos, jogados nas salas de solitária, desta vez não tiraram só a liberdade, também lhe privaram a imaginação.


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