Arquivo para a categoria 'Geral'

30
out
10

As “leis” não ditas (Fundação Casa)

Dan Monte Foto: Priscila Lopes

Seria muita falsidade dizer que conhecia tudo do vocabulário e modo de agir dos adolescentes que entrevistei em Itaquera.  Fui criada em uma família de classe média e, felizmente, nunca passei pelas situações que ouvi na pequena sala de atendimento na Unidade de Internação da Zona Leste. Porém, aprendi muita coisa que nenhum livro ensinaria, nem mesmo os mais “modernos” da literatura marginal/periférica.

Ao conversar com “Dan Monte” (nome fictício, pois o ECA não permitia a divulgação, mesmo todos os meus entrevistados fazerem questão de colocar no livro o nome verdadeiro) aprendi que existem certas “leis” tanto em UI e presídios, como também nas ruas, que uma vez não respeitadas podem causar sérios problemas.

Dan era usuário de crack e viu a droga destruir os poucos bens que a família possuía. Chegou a vender colheres e garfos para sucateiros a fim de garantir o consumo diário, que não era pouco. Certa noite, na “drena total” (como ele costumava me dizer), saiu procurando qualquer coisa que pudesse ser revertida nas “preciosas pedrinhas da falsa alegria” (como ele se referia ao crack) e acabou entrando na casa de um vizinho e roubando um botijão de gás. Foi então que aprendi uma das “leis” não ditas: NUNCA ROUBAR A COMUNIDADE EM QUE VOCÊ VIVE. É como se você estivesse desrespeitando toda uma “família”.

Dan foi dedurado por moradores e mais, recebeu um “aviso” de alguns traficantes, se fosse pego roubando novamente a região onde morava não seria entregue a “FEBEM”, seria bem pior do que ficar privado da liberdade por meses ou anos, possivelmente pagaria com a vida.

10
set
10

os contatos desta caminhada…

Capa do livro Foto: Priscila Lopes

No último dia que entrei na UI-Itaquera levava comigo 10 livros. Como havia prometido, todos os meus entrevistados receberiam um exemplar, e eu fazia questão de entregar em mãos. Antes, passei na sala do diretor da Unidade, que tem como formação o jornalismo e desde a primeira entrevista me deu liberdade para ficar sozinha com cada jovem, e lhe entreguei um livro. Sai antes que ele falasse algo, o meu interesse maior era de ver os garotos recebendo, pois a maioria deles achava que eu ia grampear todas as páginas e pronto.

O agente interno foi chamando cada nome e os garotos se reuniram na grade principal que dividia a área de atendimento e o pátio. Como eu havia passado quase seis meses entrevistando, conhecendo e convivendo com eles, já havia uma intimidade, uma certa confiança e pedi que pudesse usar uma das salas de aula para entregar os livros.

Uma agente quis participar da entrega, mas eu não queria que ninguém tivesse acesso ao livro antes deles, então ficamos nós sete dentro da sala. Sim, sete, pois um dos meninos já havia entrado em Liberdade Assistida exatamente na semana em que os livros ficaram prontos (mandei pelo correio o dele).

Ver cada um folheando, encontrando suas histórias, tentando corresponder seus nomes fictícios com os reais e olhando as fotografias, me deram uma sensação de que eu havia acrescentado em cada vida, um pouco de esperança. Parece poético demais, mas foi a sensação que eu tive. Em cada exemplar havia uma dedicatória especial e um contato.

No fim, consegui contatar pouco aqui fora, mas vire e mexe recebo algum tipo de sopro de outros  jovens que passaram pela UI-Itaquera ou até outra unidade. Meus contatos continuam os mesmos: e-mail: priscilals@gmail.com/MSN:pri_nutshell@hotmail.com, claro que não conseguirei dar voz a todos, mas sei que posso respondê-los, trocar vivências (por mais que tive poucas) e acrescentar de alguma forma na caminhada.

13
ago
10

Por onde andam…

Pátio Unidade de Internação - Itaquera. Foto: Priscila Lopes

No final de 2008 concluí meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), estava pronto o trabalho que havia me dado o maior prazer jornalístico já vivido, mesmo comparado a atual situação no mercado de trabalho. Conviver seis meses com aqueles jovens, repletos de sonhos, vontades e carentes de alguém que acreditasse neles, foi mais compensador do que a nota no final do curso. Mais do que isso, tendo passado quase dois anos de tudo aquilo, eu ainda me pego pensando em cada um daqueles garotos.

Como já retratei aqui, alguns eu mantive contato, outros nem sei o paradeiro… Às vezes, tenho a sensação de que vou receber notícias, que entrarão em contato, afinal, em cada livro, entregue em mãos, havia meu e-mail e meu nome completo. Não seria muito difícil me achar, há o blog, meus contatos e nada que um “Google” não resolvesse, mas seria utopia demais achar que todos acessam internet e podem topar comigo a qualquer instante, mesmo que virtualmente.

Hoje, eu torço para que cada um daqueles meninos entrevistados, tanto os que estavam dentro da Unidade de Itaquera quanto os que foram entrevistados já em Liberdade Assistida, estejam bem e que tenham traçado um novo caminho. Desejo que pelo menos 10% das perspectivas de futuro, a maioria delas contadas com lagrimas nos olhos, tenham se concretizado, tornado possível. Não só os sonhos dos meus entrevistados, mas os meus em relação a todos eles.

17
mar
10

A primeira rebelião da UI-Itaquera

Fachada da UI-Itaquera Foto: Priscila Lopes

O celular toca… “Alô, Priscila? Viu a notícia que estão dando na TV? Parece que está acontecendo uma rebelião em Itaquera.” O aviso vem de um amigo que acompanhou, mesmo que de longe, todo o meu envolvimento na Unidade de Internação de Itaquera, Zona Leste de São Paulo.

Conhecida como Unidade Modelo, ou seja, aquela que tenta dar melhores condições para se cumprir a medida sócio-educativa imposta, Itaquera era orgulho por nunca ter tido uma rebelião. Isso até o dia 11 de março de 2010.

Uma tentativa de fuga teria colocado o caldeirão, com 120 jovens, para ferver. O problema não era lotação, a “Casa” comporta até 130 adolescentes e quando eu a visitava mais de 140 estavam lá. O problema ali é outro, não mostrado em uma matéria televisiva de 59 segundos, mais de um minuto é luxo é tedioso, isso claro se não houver reféns, armas apontadas para cabeças ou algo do gênero.

Certa vez, em uma conversa com o segurança da porta de entrada principal da UI-Itaquera, onde eu era revistada por uma guarda, ouvi a seguinte frase: “Eles tomam isso daqui quando quiserem. Vivemos de camaradagem, uma troca de favores, mas quando não mais estiverem satisfeitos é só esperar a fuga ou a rebelião”.

A fuga não aconteceu, 45 garotos tentaram sem sucesso (Havia uma informação no Jornal Estadão sobre 29 meninas, mas a Unidade só tem homens. – Me alertou o Gildemar em contato). Já a rebelião, foi controlada em 40 minutos com a “ajuda” do Batalhão da Polícia Militar. Na Unidade, foram encontrados pedaços de pau e objetos pontiagudos. A “Casa” não pegou fogo porque a maioria não aderiu, mas estes também irão pagar e ficarão privados de algumas “regalias”, como assistir televisão ou ler livros. Resumindo, estão novamente presos, jogados nas salas de solitária, desta vez não tiraram só a liberdade, também lhe privaram a imaginação.

Muralha da UI-Itaquera Fotos: Priscila Lopes

06
fev
10

Dedicatória – Sonhos Além das Grades

Foto: Priscila Lopes

Lendo novamente meu trabalho, parei por alguns minutos para refletir sobre a dedicatória feita em 2008.

“Dedico este trabalho a todos os meninos, que corajosamente partilharam comigo suas dores, seus sonhos e suas histórias de vida. Dedico aos seus parentes: pais, tios, irmãos, mulheres e filhos, vítimas inocentes dos erros alheios que, mesmo em meio a tantas dificuldades, encontraram uma maneira de apoiar, de perdoar e de amar. Dedico também aos sonhos de um futuro melhor, mais digno e mais feliz, que torna todo o sofrimento suportável.” Priscila Lopes

Hoje, há mais de mim nestas palavras do que eu poderia imaginar.

30
dez
09

DASPRE e Sistema Prisional Feminino

"Daspre, a grife que liberta" Foto: Divulgação

Esta semana tive o prazer de ouvir uma série de programas sobre o Sistema Prisional Feminino, trabalho este desenvolvido por dois alunos da PUC-SP, Rodrigo Borges Delfim e Alexandre Saconi.

Dividido em quatro partes, o trabalho consegue retratar de forma precisa e repleta de fontes, o Sistema Prisional, o cotidiano das presas, as iniciativas e as perspectivas. Irei pedir autorização dos jornalistas para publicar um dos programas neste WordPress.

Ouvindo os programas, eu que já havia escutado falar de Daslu e Daspu, me deparei com a Daspre, isso mesmo, Daspre. Uma grife criada, inicialmente como projeto, em 2008 e que já beneficiou mais de 200 presas das Penitenciárias Feminina de Santana, do Butantã e da Capital. Com intuito não é de apenas “ocupar a cabeça” das presas, mas também dar oportunidades, ensinar e tornar possível a concretização de sonhos, depois da passagem pela prisão.

Utilizando o slogan “Daspre, a grife que liberta”, porta-jóias, bolsas, caixas de costura, bijuterias e acessórios em geral são vendidos e revertem em beneficio de 80 reais para presas em regime fechado e salário de 315 reais, mais vale transporte e refeição, no caso de presas em regime semi-aberto. Em ambos os casos ocorrem à remição da pena, a cada três dias de trabalho, um dia da sentença é diminuído.

Agora aquela questão básica me vem à cabeça: “por que será que eu nunca ouvi falar da Daspre?”. A pauta não é “vendável”? Somente notícias negativas de cadeias e prisões interessam? Ou há também o descaso da sociedade? Coisas para se pensar neste final de ano…

Produtos Daspre - Foto: Divulgação

15
dez
09

Dan Monte… “Esse número de telefone não existe”

Dan Monte: o crack e suas consequências Foto: Priscila Lopes

O ano está acabando, estou tendo pouco tempo para escrever no WordPress, mas hoje resolvi fazer mais um contato, porém, já pressentindo que não obteria sucesso. No caderno de anotações, onde trago todas as informações dos jovens entrevistados para o livro “Sonhos além das grades”, procuro por Dan Monte (nome fictício). Apenas um número de telefone, que nem mesmo é de sua casa.

A família morava em Pindamonhangaba, interior de São Paulo, não tinha telefone e Dan, de 16 anos, me contou que o barraco onde vivia com a mãe e mais 2 irmãos, não tinha nenhuma identificação. A única forma de contato era mesmo o telefone de uma “vizinha distante”, que consegui junto às assistentes sociais da Fundação Casa de Itaquera. Mas ao discar, a mensagem de uma voz robótica dizia que o número de telefone não existia. Era colocado um ponto final em mais um contato. Talvez eu consiga algo junto a Secretaria de Assistência Social de Pindamonhangaba, visto que provavelmente o Dan ainda esteja cumprindo Liberdade Assistida, mas é uma dúvida.

Dan tem uma típica história de família desestruturada, garoto pobre, cresceu sem o pai, aprendeu na rua a malícia de roubar salgadinhos nos mercados, soltar pipa nas lajes, brincar de pega-pega. Por incentivo dos tios, acabou experimentando o primeiro cigarro de maconha, algo até que insignificante.  No fundo do quintal da tia, aceitou um outro cigarro, sem saber que ela havia colocado raspas de crack. O vício foi quase que instantâneo. Após o primeiro, quis o segundo, o terceiro, o crack puro. Daí por diante, passou a roubar de tudo para ter a droga, de botijão de gás a roupa nova dos irmãos. Chegou a vender todos os talheres de casa em um depósito de sucatas para juntas moedas.

A mãe conseguiu lhe internar 2 vezes, fugiu em ambas. Ia para a rua, fazer o que fosse para ter o crack, chegou a pesar menos de 50 quilos, não tinha forças, mas o vicio o corroia. Foi pego roubando uma bicicleta, a qual seria vendida em qualquer esquina para conseguir manter o consumo diário de quase 20 pedras.

Sua medida sócio-educativa de internação era de 10 meses, por meus cálculos, provavelmente voltou para casa no começo de novembro. Lembro que ele dizia que sabia dos problemas que o vicio trouxe, mas que estava limpo e assim queria ficar, já que “não era bandido, só havia roubado porque o crack o obrigava”. A primeira coisa que queria fazer, ao sair de Itaquera, era comer um hambúrguer com os sóbrios Yasmin e Igor, e eu sinceramente, espero que tenha conseguido.

"Nessa foto fiquei parecendo aqueles bandidinhos", Dan Monte - Foto Priscila Lopes

27
nov
09

Continuar a caminhada…

Uma caminhada, cheia de pedras, mas que não podemos parar... Foto: Priscila Lopes

Ser quem sou e agradecer pelos tombos que levei sendo apenas eu. Nasci tola, cresci tola e morrerei na tolice de acreditar que nunca deve-se negar mais uma chance nesta vida. O que eu ganhei com tudo isso? Muito. Sou resultado das minhas ações e por isso agradeço todos os dias pelas lágrimas, dores, quedas e traições.

Tudo tem sua hora, portanto espero o que esta por vir. E que eu tenha sabedoria, paz e força para continuar nessa caminhada de bem, fazendo não só por mim, mas por  nós todos.

22
nov
09

O Contador de histórias

Milagres acontecem? Foto: Divulgação


Na grande tela do cinema os créditos já subiam, mas eu me mantinha ali, parada, intacta, como se tivesse tomado um choque. Os amigos já repercutiam as cenas, falavam de jogos de basquete, cursos de veterinária, e eu ali imóvel. A luz estava totalmente acessa e era possível ver que em muitos momentos meus olhos não suportaram e cederam a vontade de chorar.

“O Contador de histórias” não foi o primeiro filme escolhido no dia Nacional do Cinema brasileiro da rede Cinemark, onde conferi 5 filmes em um dia só, ele foi um dos últimos a serem citados, mas o primeiro no quesito fantástico.

Inspirado na história real de Roberto Carlos Ramos, ex-menino de rua que foi deixado pela mãe na FEBEM (havia um “conceito” bem diferente dos de hoje, porém já falido), o filme mostra as dificuldades que o garoto enfrentou até conseguir fazer o que mais gostava: contar histórias.

Assim como é mencionado no longa, Roberto recebeu um milagre, desses que não acontecem todos os dias, e após muitos traumas, foi morar com uma pedagoga francesa que o adotou e mostrou o mundo.

Acho que o final, inusitado, visto que “milagres não acontecem sempre”, principalmente por ser real, me deixou sem movimentos por alguns segundos. Tive que conter o choro ao lembrar que dos casos que eu ouvi, dentro da Fundação Casa de Itaquera-SP, não existia nenhum Roberto.

Segue o trailer do filme, que “Puta que lá merda” (expressão muito usada no longa) é simplesmente fantástico.

06
nov
09

Tortura institucionalizada

Agente - Itaquera

“Alguns funcionários, pouco profissionais, descontavam seus problemas pessoais nos jovens, chegando a agredi-los." Relato José Pedro, 17 anos. Foto: Priscila Lopes

“Não posso deixar que você publique isso! Depois que eu sair, tudo bem, mas agora não posso me queimar com eles.” – diz José Pedro (nome fictício), após contar uma das cenas mais chocantes que ouvi durante os 6 meses de entrevistas dentro da Fundação Casa de Itaquera em 2008.

Tratava-se do relato de uma sessão de chutes, socos, tapas e agressões, sofridas pelo jovem, por 4 funcionários da unidade. Unidade esta vista como “MODELO”, ou seja, uma das melhores, com dois anos de existência sem nenhuma rebelião, com atendimento psicológico, aulas… E?

Para que não fosse prejudicado, já que José Pedro pretendia sair o mais rápido possível “daquele lugar”, pediu que eu colocasse a seguinte frase: “alguns funcionários, pouco profissionais, descontavam seus problemas pessoais nos jovens, chegando a agredi-los”. Maneira sutil de esconder as sessões de maus tratos e tortura.

Outros garotos também chegaram a me contar que, apesar das “regalias” de Itaquera, entenda-se um colchão para cada jovem, um cobertor, banho de sol diário por 6 horas com atividade física e assistir “Malhação”, desrespeitar as regras, ditas e não ditas, resultava em punições que iam muito além da privação de assistir televisão ou participar de uma aula de panificação.

Falavam de punições severas, muitas vezes sem sentido real, por nervosismo causado por problemas pessoais trazidos pelos funcionários, para dentro da unidade. “Salário de merda, mulher só reclama e você bandidinho me olhou estranho que eu percebi.” Pronto! Quer motivo maior do que um suposto olhar atravessado? Já está justificado o tapa na cara.

Se a Casa MODELO, que devia servir de exemplo, como o próprio nome diz, em menos de 3 anos já se encontra com funcionários cansados e descontentes, que extrapolavam suas frustrações agredindo jovens, o que podemos esperar de outras unidades? Tortura institucionalizada?




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