23
set
11

As resistências…

Breno leu e releu toda sua história antes de dar o ok final. (Foto Priscila Lopes)


Muita gente me pergunta se eu tive “problemas” na hora de entrevistar os garotos da Fundação Casa de Itaquera… Não acho que tive problemas, mas sim resistência, comum, afinal, eu era uma mera estudante de jornalismo que estava indo visitá-los.

É claro que a receptividade não seria a de um churrasco, uma festa ou a mesa de um barzinho, mas tentei tornar o menos árduo possível o ato de contar suas histórias. Muitas vezes, senti que a cada conversa se abria um clarão na mente dos garotos, ou um abismo, já que a expressão “relembrar é viver” é sincera.

Não era fácil sentar em uma sala, na frente de uma garota (eu tinha 22 anos na época), e contar da vida. Não me conheciam, não eram meus amigos e, na mentalidade de alguns, eu não mudaria nada… Mas, eles mudaram muito em mim. A cada conversa, a cada lágrima, a cada riso ali dentro da pequena sala, havia uma mudança enorme dentro de mim.

Alguns, depois de dias e horas de gravação, ainda tinham o pé atrás, mentiram, revelaram, desmentiram… Outros, viam naqueles minutos, um momento para serem ouvidos… E no fundo, parecia mesmo que todos queriam apenas serem ouvidos, sem julgamentos, sem apontar o dedo, apenas serem ouvidos.

Espero ter feito a minha parte, porque eles, eles fizeram muito mais por mim.

30
out
10

As “leis” não ditas (Fundação Casa)

Dan Monte Foto: Priscila Lopes

Seria muita falsidade dizer que conhecia tudo do vocabulário e modo de agir dos adolescentes que entrevistei em Itaquera.  Fui criada em uma família de classe média e, felizmente, nunca passei pelas situações que ouvi na pequena sala de atendimento na Unidade de Internação da Zona Leste. Porém, aprendi muita coisa que nenhum livro ensinaria, nem mesmo os mais “modernos” da literatura marginal/periférica.

Ao conversar com “Dan Monte” (nome fictício, pois o ECA não permitia a divulgação, mesmo todos os meus entrevistados fazerem questão de colocar no livro o nome verdadeiro) aprendi que existem certas “leis” tanto em UI e presídios, como também nas ruas, que uma vez não respeitadas podem causar sérios problemas.

Dan era usuário de crack e viu a droga destruir os poucos bens que a família possuía. Chegou a vender colheres e garfos para sucateiros a fim de garantir o consumo diário, que não era pouco. Certa noite, na “drena total” (como ele costumava me dizer), saiu procurando qualquer coisa que pudesse ser revertida nas “preciosas pedrinhas da falsa alegria” (como ele se referia ao crack) e acabou entrando na casa de um vizinho e roubando um botijão de gás. Foi então que aprendi uma das “leis” não ditas: NUNCA ROUBAR A COMUNIDADE EM QUE VOCÊ VIVE. É como se você estivesse desrespeitando toda uma “família”.

Dan foi dedurado por moradores e mais, recebeu um “aviso” de alguns traficantes, se fosse pego roubando novamente a região onde morava não seria entregue a “FEBEM”, seria bem pior do que ficar privado da liberdade por meses ou anos, possivelmente pagaria com a vida.

10
set
10

os contatos desta caminhada…

Capa do livro Foto: Priscila Lopes

No último dia que entrei na UI-Itaquera levava comigo 10 livros. Como havia prometido, todos os meus entrevistados receberiam um exemplar, e eu fazia questão de entregar em mãos. Antes, passei na sala do diretor da Unidade, que tem como formação o jornalismo e desde a primeira entrevista me deu liberdade para ficar sozinha com cada jovem, e lhe entreguei um livro. Sai antes que ele falasse algo, o meu interesse maior era de ver os garotos recebendo, pois a maioria deles achava que eu ia grampear todas as páginas e pronto.

O agente interno foi chamando cada nome e os garotos se reuniram na grade principal que dividia a área de atendimento e o pátio. Como eu havia passado quase seis meses entrevistando, conhecendo e convivendo com eles, já havia uma intimidade, uma certa confiança e pedi que pudesse usar uma das salas de aula para entregar os livros.

Uma agente quis participar da entrega, mas eu não queria que ninguém tivesse acesso ao livro antes deles, então ficamos nós sete dentro da sala. Sim, sete, pois um dos meninos já havia entrado em Liberdade Assistida exatamente na semana em que os livros ficaram prontos (mandei pelo correio o dele).

Ver cada um folheando, encontrando suas histórias, tentando corresponder seus nomes fictícios com os reais e olhando as fotografias, me deram uma sensação de que eu havia acrescentado em cada vida, um pouco de esperança. Parece poético demais, mas foi a sensação que eu tive. Em cada exemplar havia uma dedicatória especial e um contato.

No fim, consegui contatar pouco aqui fora, mas vire e mexe recebo algum tipo de sopro de outros  jovens que passaram pela UI-Itaquera ou até outra unidade. Meus contatos continuam os mesmos: e-mail: priscilals@gmail.com/MSN:pri_nutshell@hotmail.com, claro que não conseguirei dar voz a todos, mas sei que posso respondê-los, trocar vivências (por mais que tive poucas) e acrescentar de alguma forma na caminhada.

13
ago
10

Por onde andam…

Pátio Unidade de Internação - Itaquera. Foto: Priscila Lopes

No final de 2008 concluí meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), estava pronto o trabalho que havia me dado o maior prazer jornalístico já vivido, mesmo comparado a atual situação no mercado de trabalho. Conviver seis meses com aqueles jovens, repletos de sonhos, vontades e carentes de alguém que acreditasse neles, foi mais compensador do que a nota no final do curso. Mais do que isso, tendo passado quase dois anos de tudo aquilo, eu ainda me pego pensando em cada um daqueles garotos.

Como já retratei aqui, alguns eu mantive contato, outros nem sei o paradeiro… Às vezes, tenho a sensação de que vou receber notícias, que entrarão em contato, afinal, em cada livro, entregue em mãos, havia meu e-mail e meu nome completo. Não seria muito difícil me achar, há o blog, meus contatos e nada que um “Google” não resolvesse, mas seria utopia demais achar que todos acessam internet e podem topar comigo a qualquer instante, mesmo que virtualmente.

Hoje, eu torço para que cada um daqueles meninos entrevistados, tanto os que estavam dentro da Unidade de Itaquera quanto os que foram entrevistados já em Liberdade Assistida, estejam bem e que tenham traçado um novo caminho. Desejo que pelo menos 10% das perspectivas de futuro, a maioria delas contadas com lagrimas nos olhos, tenham se concretizado, tornado possível. Não só os sonhos dos meus entrevistados, mas os meus em relação a todos eles.

14
jul
10

“Você realmente acha que eles são recuperáveis?”

Foto: Priscila Lopes

A pergunta que abre esse post não foi feita por alguma amiga, parente ou professor, na verdade, quem me indagou tal questão em 2008, foi exatamente aquela que poderia mudar todas as respostas, uma assistente social.

Não, não cometerei o erro de apontar um culpado, como se ele existisse, não mesmo, mas nos tempos em que visitei a UI-Itaquera ficou claro como o tempo age sobre esses profissionais.

Os assistentes sociais, creio que não apenas os de Itaquera, acabam com o tempo, criando uma certa massificação dos atos infracionais cometidos pelos adolescentes. Passa a ser tudo tão comum e corriqueiro que a mesma “pena” pode ser facilmente aplicada em um caso de furto e um sequestro. Parece apelativo? Quem dera fosse.

Acabo meu post aqui, condenando o funcionário pela não ressocialização do jovem? Não mesmo.

Há sim uma parcela de culpa dos assistentes sociais, mas há também o “não papel” do Estado, que simplesmente nomeia e espera que se “dê um jeito”.

Não há nenhum tipo de trabalho realizado com esses funcionários, não há reciclagem e não há qualquer acompanhamento psicológico. Desta forma, fica ainda mais claro entender porque o “sistema é falido”, nasceu falido e assim continuará, pelo que vi, por muitos e muitos anos.

28
maio
10

E é quando um recado… Te enche de esperanças… (Rafael Francisco dos Santos)

Não sei seus nomes, nem histórias... Mas, sei que estão lá. Foto: Priscila Lopes

Hoje, ao abrir o e-mail, recebi o seguinte comentário “via wordpress”:

“Oi pri, vc não vai lembrar de mim,pois vc viu muitos garotos lá na unidade.
Eu,era um deles,doido para ser intrevistado mais não fui.
Eu tive a oportunidade de fazer um curso de mecanica fora da unidade,
e um outro amigo que tambem estava lá,teve a oportunidade de fazer faculdade.
eu vejo a suas historia,e chega me arrepio,pois,eu sei q tudo isso é verdade…
os meninos q vc entrevistou,ganharam livros lá dentro e um deles era o G*****,
que estava comigo a 1 ano e 8 meses que contou a historia dele…
eu queria lhe parabenizar pelo seu trabalho e sua coragem,continue mostrando a verdade
para as pessoas,e mostre que todo interno tem a chance de mudar..
claro que depende dele,mas depende muito mais dos funcionários que pra falar a verdade não
ajudam em nada,a não ser esculaxar,xigar e bater.
Muito obrigado pelo espaço que vc me deu para falar.

Aguardo resposta..

Rafael francisco dos santos”

Não podia simplesmente absorver… Tentei enviar um e-mail, em segundos o mesmo voltou. Quantos “Rafaéis” Francisco dos Santos, não existem? Senti que ouvi tão pouco… As horas de entrevista, com risadas, choros e silêncios, longos silêncios, estão aqui guardadas. Me fazem lembrar de todos os problemas e críticas que enfrentei para fazer esse trabalho, mais do que isso, me faz lembrar de quão humana eu ainda sou.

Agradeço, todos os que foram ouvidos, os que não foram e os que ainda serão…

17
mar
10

A primeira rebelião da UI-Itaquera

Fachada da UI-Itaquera Foto: Priscila Lopes

O celular toca… “Alô, Priscila? Viu a notícia que estão dando na TV? Parece que está acontecendo uma rebelião em Itaquera.” O aviso vem de um amigo que acompanhou, mesmo que de longe, todo o meu envolvimento na Unidade de Internação de Itaquera, Zona Leste de São Paulo.

Conhecida como Unidade Modelo, ou seja, aquela que tenta dar melhores condições para se cumprir a medida sócio-educativa imposta, Itaquera era orgulho por nunca ter tido uma rebelião. Isso até o dia 11 de março de 2010.

Uma tentativa de fuga teria colocado o caldeirão, com 120 jovens, para ferver. O problema não era lotação, a “Casa” comporta até 130 adolescentes e quando eu a visitava mais de 140 estavam lá. O problema ali é outro, não mostrado em uma matéria televisiva de 59 segundos, mais de um minuto é luxo é tedioso, isso claro se não houver reféns, armas apontadas para cabeças ou algo do gênero.

Certa vez, em uma conversa com o segurança da porta de entrada principal da UI-Itaquera, onde eu era revistada por uma guarda, ouvi a seguinte frase: “Eles tomam isso daqui quando quiserem. Vivemos de camaradagem, uma troca de favores, mas quando não mais estiverem satisfeitos é só esperar a fuga ou a rebelião”.

A fuga não aconteceu, 45 garotos tentaram sem sucesso (Havia uma informação no Jornal Estadão sobre 29 meninas, mas a Unidade só tem homens. – Me alertou o Gildemar em contato). Já a rebelião, foi controlada em 40 minutos com a “ajuda” do Batalhão da Polícia Militar. Na Unidade, foram encontrados pedaços de pau e objetos pontiagudos. A “Casa” não pegou fogo porque a maioria não aderiu, mas estes também irão pagar e ficarão privados de algumas “regalias”, como assistir televisão ou ler livros. Resumindo, estão novamente presos, jogados nas salas de solitária, desta vez não tiraram só a liberdade, também lhe privaram a imaginação.

Muralha da UI-Itaquera Fotos: Priscila Lopes